Eflúvio Anágeno: A Queda de Cabelo Durante a Quimioterapia
Entre os efeitos secundários da quimioterapia, a queda de cabelo é frequentemente o mais temido — não por ser o mais grave, mas por ser o mais visível. É o que torna a doença pública, num momento em que a maioria das pessoas preferia decidir a quem contar.
O nome clínico é eflúvio anágeno: uma queda rápida e generalizada que começa poucas semanas após o início do tratamento e atinge todo o couro cabeludo, muitas vezes também sobrancelhas, pestanas e pelo do corpo. O que importa saber desde já é que, na grande maioria dos casos, o folículo não é destruído — está temporariamente impedido de trabalhar, e volta a produzir cabelo depois de o tratamento terminar.
Este artigo explica porque acontece, o que ajuda durante o tratamento e como decorre a recuperação. Não dá prazos nem probabilidades: o risco, a altura e a intensidade dependem do protocolo, da dose e de cada pessoa, e quem responde a isso é a equipa de oncologia que o acompanha.
Índice
O que é o eflúvio anágeno e porque é tão rápidoNão é o mesmo que eflúvio telogénicoOutras causas além da quimioterapiaA touca geladaCuidados durante o tratamentoSobrancelhas, pestanas e pelo do corpoComo decorre a recuperaçãoQuando consultarPerguntas FrequentesO que é o eflúvio anágeno e porque é tão rápido
O cabelo passa a maior parte da vida em fase anágena — a fase de crescimento activo, em que as células da raiz se dividem a um ritmo dos mais rápidos do corpo humano. É essa velocidade que torna o folículo vulnerável: os fármacos de quimioterapia actuam justamente sobre células que se dividem depressa, e não distinguem uma célula tumoral de uma célula da raiz do cabelo.
Travada essa divisão, o fio que estava a ser produzido fica frágil no ponto onde crescia e parte-se aí. Como a grande maioria dos folículos está em fase de crescimento ao mesmo tempo, quase todos são afectados em simultâneo — daí a queda ser generalizada e não localizada.
O ponto essencial, e o que distingue esta situação de uma alopecia cicatricial: a estrutura do folículo mantém-se. O que parou foi a produção, não o órgão.
É também o mecanismo que explica a rapidez: o fio não chega a passar pela fase de repouso, parte-se enquanto crescia, e por isso a queda torna-se evidente poucas semanas depois do início do tratamento — habitualmente durante o primeiro ciclo. Na prática, nota-se primeiro sensibilidade no couro cabeludo, depois fios a mais na almofada e na escova, e em poucos dias a queda passa a acontecer aos punhados, sobretudo ao lavar ou ao pentear.
Não é o mesmo que eflúvio telogénico
Confundem-se pelo nome e distinguem-se com facilidade pela cronologia:
| Eflúvio anágeno | Eflúvio telogénico | |
|---|---|---|
| Quando aparece | Semanas após o gatilho | 2 a 4 meses após o gatilho |
| O que acontece ao fio | Parte-se enquanto crescia | Cai depois de completar a fase de repouso |
| Intensidade | Queda generalizada e marcada | Queda difusa, o cabelo não desaparece todo |
| Outros pelos | Frequentemente afectados | Habitualmente poupados |
| Causa típica | Quimioterapia, radioterapia | Parto, doença, cirurgia, stress, carências |
Sobre a queda difusa mais comum — a que aparece meses depois de um parto, de uma infecção ou de uma dieta —, é o eflúvio telogénico que deve ler.
Os dois podem ainda sobrepor-se: um tratamento oncológico envolve cirurgias, internamentos, alterações nutricionais e stress, todos eles gatilhos de eflúvio telogénico. Uma segunda vaga de queda, mais tarde e mais suave, não significa que algo correu mal.
Outras causas além da quimioterapia
A quimioterapia é a causa mais frequente, mas não é a única:
- Radioterapia dirigida à cabeça — provoca queda apenas na zona irradiada e, consoante a dose, pode ser temporária ou definitiva; essa informação faz parte do plano e deve ser pedida à equipa de radioterapia
- Alguns fármacos não oncológicos, em situações específicas e habitualmente em doses elevadas
- Intoxicação por metais pesados, hoje rara e sobretudo em contexto ocupacional
- Doenças auto-imunes do folículo, como formas graves de alopecia areata, que podem apresentar-se de forma parecida
A touca gelada
O arrefecimento do couro cabeludo — vulgarmente “touca gelada” — é a única medida preventiva usada de forma sistemática. Aplica-se frio no couro cabeludo antes, durante e após a administração do tratamento: o frio contrai os vasos sanguíneos e reduz o metabolismo das células do folículo, o que diminui a quantidade de fármaco que lhes chega e o dano que sofrem.
O que convém saber antes de contar com ela:
- Não está disponível em todos os centros e nem todos os protocolos beneficiam da mesma forma
- Não é adequada a todas as situações clínicas — há contextos em que está desaconselhada, e essa avaliação é médica
- É desconfortável para algumas pessoas e prolonga o tempo de permanência no hospital
- O resultado é variável: pode reduzir a queda, mas não a impede necessariamente
A decisão toma-se com a equipa de oncologia, antes de começar o tratamento — não depois de a queda ter começado. É a conversa a ter na consulta de planeamento.
Cuidados durante o tratamento
Nenhum destes cuidados evita a queda, mas todos tornam o processo mais confortável e protegem a pele:
- Cortar o cabelo curto antes, se lhe fizer sentido. Muitas pessoas descrevem que gerir a transição por decisão própria é mais fácil do que assistir à queda em mechas. Rapar é igualmente válido — é uma escolha pessoal, não uma recomendação médica
- Lavagem suave, com champô neutro e a frequência que quiser. Lavar não agrava a queda
- Evitar agressões ao fio — coloração química, alisamentos, calor excessivo, escovas de tracção
- Proteger o couro cabeludo do sol: a pele que estava coberta pelo cabelo nunca se expôs e é particularmente vulnerável. Chapéu ou lenço são a forma mais simples (ver fotoprotecção) — e também do frio, porque se perde bastante calor pela cabeça descoberta
- Hidratar o couro cabeludo se ficar seco ou com comichão, com um produto simples e sem perfume
- Lenços, turbantes e perucas não prejudicam o folículo. Evite apenas adesivos agressivos e peças demasiado apertadas, que exercem tracção
Sobrancelhas, pestanas e pelo do corpo
Como o efeito é sobre todos os folículos em crescimento, é frequente perderem-se também sobrancelhas, pestanas e pelo do corpo — habitualmente algum tempo depois do cabelo da cabeça, e nem sempre na totalidade. Retomam depois de o tratamento terminar, por vezes com densidade ou forma ligeiramente diferentes.
A ausência de pestanas merece uma nota prática: elas protegem o olho de poeiras, pelo que óculos de sol e cuidado com ambientes com pó são úteis nesse período.
Como decorre a recuperação
Depois de terminar o tratamento, a sequência habitual é: primeiro uma penugem fina e clara, por vezes ainda antes do fim; depois um cabelo curto e mais denso; por fim, o crescimento retoma o ritmo normal. Quanto ao tempo, varia com a pessoa, o protocolo e a duração do tratamento — e é por isso que este artigo não dá um calendário. Duas coisas podem afirmar-se: a recuperação é gradual, e a densidade final costuma aproximar-se da anterior.
Uma expectativa que quase ninguém avisa: o cabelo novo pode vir diferente — mais encaracolado, mais fino ou mais grosso, ou com outra tonalidade. Resulta da forma como o folículo retoma a produção e, na maior parte dos casos, aproxima-se do que era ao longo dos ciclos seguintes.
Em algumas pessoas, e em determinados protocolos, a recuperação fica incompleta. Vale a pena saber que existe, para que seja avaliada em vez de esperada indefinidamente. O padrão pode assemelhar-se ao da alopecia androgenética, e há abordagens que podem ser ponderadas — sempre em articulação entre oncologista e dermatologista, nunca por conta própria durante o tratamento.
Quando consultar
À equipa de oncologia, que é quem conhece o protocolo: qual o risco de queda no seu caso, se a touca gelada é uma opção, e quando pode iniciar qualquer tratamento dirigido ao cabelo.
A avaliação dermatológica faz sentido quando: o couro cabeludo fica dolorido, vermelho, com descamação, feridas ou borbulhas; a queda tem um padrão em placas bem delimitadas em vez de generalizado; aparecem zonas de pele lisa e brilhante, sem os pontinhos dos poros; passados vários meses do fim do tratamento o cabelo não começou a recuperar; a recuperação estabilizou numa densidade claramente inferior à anterior; ou quer discutir opções para a recuperação, depois de o oncologista dar indicação.
Na MyDermaCare, poderá realizar uma consulta de dermatologia online para avaliação capilar durante ou após tratamento oncológico, com relatório dermatológico em até 24 horas úteis.
Perguntas Frequentes
Vou perder mesmo todo o cabelo?
Depende do protocolo. Alguns provocam queda quase total, outros um afinamento discreto, e alguns não afectam o cabelo. Quem consegue responder a isso é a equipa de oncologia, que conhece os fármacos e as doses do seu caso — vale a pena fazer essa pergunta antes de começar.
Quando é que o cabelo começa a cair?
Habitualmente poucas semanas depois do início do tratamento, muitas vezes ainda no primeiro ciclo. Costuma começar com sensibilidade no couro cabeludo, seguida de queda que aumenta em poucos dias.
O cabelo volta a crescer?
Na grande maioria dos casos, sim. O folículo não é destruído — apenas deixa de produzir enquanto o tratamento actua. A recuperação começa depois de o tratamento terminar e é gradual.
Quanto tempo demora a voltar ao que era?
Varia com a pessoa, o protocolo e a duração do tratamento, e por isso não há um prazo que se possa prometer. O que é consistente é a sequência: primeiro penugem, depois cabelo curto, depois crescimento normal.
A touca gelada funciona?
Pode reduzir a queda em parte dos casos, mas não a impede necessariamente, não é adequada a todas as situações clínicas nem está disponível em todos os centros. É uma decisão a tomar com a equipa de oncologia antes de iniciar o tratamento.
Posso usar peruca ou lenço?
Sim, sem risco para o folículo. Evite apenas adesivos agressivos no couro cabeludo e peças demasiado apertadas, que exercem tracção.
A queda foi do stress do diagnóstico?
Não. Resulta do efeito directo dos fármacos sobre as células do folículo. O stress pode contribuir, mais tarde, para uma queda difusa do tipo telogénico — uma coisa diferente e com outra cronologia.