Queratose Actínica: as Manchas Ásperas do Sol — Sintomas, Cremes e Tratamento

Passa a mão pela testa, pelo couro cabeludo ou pelo dorso da mão e encontra uma zona áspera, como lixa fina, que não sai com creme hidratante. Vê-se pouco — sente-se muito. É a forma mais típica de se apresentar a queratose actínica (as manchas ásperas provocadas pelo sol).
Não é um cancro. É uma lesão pré-cancerígena: um grupo de células da camada superficial da pele que se alterou com o sol acumulado ao longo de décadas e que, numa minoria dos casos, pode com o tempo transformar-se num cancro da pele chamado carcinoma espinocelular.
Este artigo explica como reconhecer, o que significa dano actínico, que tratamentos existem, quais estão disponíveis em Portugal e quando não se deve esperar.
Índice
O que é a queratose actínicaComo se reconhece: sente-se antes de se verOnde aparece e quem tem mais riscoDano actínico: porque não basta tratar as manchas visíveisO que se confunde com queratose actínicaSinais de alarme — quando não esperarTratar mancha a mancha: frio, raspagem, cirurgiaCremes e soluções que tratam a área todaTratamento com luz (terapia fotodinâmica)Como evitar que apareçam novasDepois do tratamento: o que esperarQuando consultarPerguntas FrequentesO que é a queratose actínica
A camada mais superficial da pele é feita de células chamadas queratinócitos. A radiação ultravioleta vai danificando o material genético dessas células ao longo dos anos, e quando um grupo delas passa a multiplicar-se de forma desordenada — mas ainda sem atravessar para as camadas profundas — forma-se uma queratose actínica. Também lhe chamam queratose solar, e raramente aparece só uma.
“Pré-cancerígena” quer dizer que as células já estão alteradas mas continuam confinadas à superfície: não invadiram e não têm como se espalhar. O risco de uma lesão isolada se transformar em cancro é baixo. Mas quem tem muitas lesões tem um risco apreciável de que apareça um cancro algures naquela área — e a maior parte dos carcinomas espinocelulares surge precisamente em zonas que já tinham queratoses actínicas.
Não são doenças separadas. A queratose actínica, a doença de Bowen (células alteradas em toda a espessura da camada superficial) e o carcinoma espinocelular (quando invadem em profundidade) são fases do mesmo processo. É essa continuidade que justifica tratar cedo.
Como se reconhece: sente-se antes de se ver
O sinal mais fiável não é visual, é táctil:
- Ao toque: rugosa, seca, como lixa fina ou uma crosta que se solta e volta a formar-se
- À vista: mancha rosada ou avermelhada, por vezes acastanhada, com uma escama aderente
- Sintomas: a maioria não incomoda; algumas ardem ou ficam sensíveis ao esfregar da toalha
- Evolução: persiste meses, pode parecer melhorar no Inverno e voltar no Verão
Muitas pessoas atribuem estas zonas a “pele seca” e passam anos a aplicar hidratante sem resultado. Uma zona áspera numa área exposta ao sol que não desaparece com hidratante merece ser observada.
Os dermatologistas graduam as lesões pela espessura, porque é isso que decide o tratamento:
| Como se apresenta | O que se sente e vê | O que costuma implicar |
|---|---|---|
| Fina | Quase só se sente; mal se vê | Responde bem a tratamentos aplicados na pele e ao tratamento com luz |
| Intermédia | Vê-se e sente-se, avermelhada com escama | Cremes ou soluções, luz, ou frio |
| Espessa | Dura, muito queratinizada, por vezes em forma de “corno” | Frio mais intenso, raspagem ou cirurgia; pode exigir biópsia |
Onde aparece e quem tem mais risco
Aparece onde o sol bate todos os dias, durante toda a vida: couro cabeludo sem cabelo, testa, têmporas, nariz, orelhas, lábio inferior, dorso das mãos e antebraços.
Tem maior probabilidade de as desenvolver quem tem fototipo claro (pele que se queima e bronzeia pouco), mais de 40 anos, anos de trabalho ou lazer ao ar livre, queimaduras solares na infância, história de solários, calvície (o couro cabeludo perde a protecção do cabelo), defesas baixas (transplantados, quimioterapia, medicação imunossupressora) ou antecedentes de queratoses actínicas e de qualquer cancro da pele, incluindo melanoma.
É uma das razões mais frequentes de consulta de dermatologia em Portugal a partir da meia-idade, sobretudo no interior e no sul do país e junto ao mar.
Dano actínico: porque não basta tratar as manchas visíveis
Esta é a ideia mais importante do artigo, e é a resposta a uma queixa muito comum: “congelaram-me as manchas e seis meses depois já tinha outras.”
Dano actínico (também chamado “cancerização de campo”) é o facto de o sol não danificar apenas os pontos onde a lesão se vê. Danifica toda a área exposta. À volta de cada mancha palpável existem células já alteradas que ainda não deram sinal — e que vão dar, mais tarde. As lesões que se sentem são a ponta do icebergue.
Daqui decorrem duas formas de tratar, que se complementam:
- Mancha a mancha — destrói o que se vê. Rápido, mas deixa intacto o resto do campo.
- Tratamento de campo — cremes, soluções ou luz aplicados a toda a região (por exemplo, o couro cabeludo inteiro), tratando o visível e o que ainda não se vê.
Quem tem várias lesões na mesma zona beneficia geralmente de tratamento de campo, isolado ou depois de tratar as lesões mais espessas. A decisão é do dermatologista e depende do número, da espessura e da localização das lesões.
O que se confunde com queratose actínica
Nem tudo o que é áspero e avermelhado numa zona exposta é queratose actínica. As confusões mais frequentes são com as manchas senis (castanhas, planas e lisas ao toque, sem escama), com a queratose seborreica (lesão benigna com aspecto “colado” à pele), e — no outro extremo — com um cancro da pele já estabelecido ou um melanoma.
Esta distinção não se faz em casa, e é essa a razão de ser da consulta: o dermatologista observa com dermatoscópio — um aparelho que amplia e ilumina a pele — e, se a dúvida persistir, faz uma biópsia, a única forma de ter a certeza.
Sinais de alarme — quando não esperar
Uma lesão que era só áspera e passa a ter qualquer destas características deve ser observada sem esperar:
- Começa a doer de forma persistente
- Sangra ao toque ligeiro ou ao secar com a toalha
- Ulcera — abre uma ferida que não fecha
- Cresce depressa, em semanas
- Endurece — sente-se uma base firme por baixo
- Não responde a um tratamento bem feito, ou volta sempre no mesmo sítio
- Aparece em quem tem defesas baixas — nestes casos o limiar para observar deve ser sempre mais baixo
Veja também o guia de sinais de alarme da pele.
Tratar mancha a mancha: frio, raspagem, cirurgia
Usados quando há poucas lesões, quando são espessas, ou a complementar o tratamento de campo.
- Crioterapia (azoto líquido) — o mais usado. Aplica-se frio extremo sobre a lesão; forma-se uma crosta que cai ao fim de alguns dias. Rápido e feito na consulta. Arde durante a aplicação e nas horas seguintes, e pode deixar uma mancha mais clara, sobretudo em peles morenas.
- Raspagem (curetagem), com ou sem cauterização — sob anestesia local, para lesões espessas. Deixa uma cicatriz pequena.
- Cirurgia — quando há suspeita de que já se trata de um cancro, porque permite analisar toda a lesão ao microscópio.
A crioterapia trata bem o que se vê, mas não trata o campo à volta — é essa a razão pela qual aparecem lesões novas meses depois.
Cremes e soluções que tratam a área toda
É a pergunta mais frequente: “há um creme para isto?” Há vários, todos sujeitos a receita médica e todos com o mesmo princípio — tratar a região inteira durante algumas semanas, provocando de propósito uma reacção inflamatória que elimina as células alteradas.
Disponíveis em Portugal:
| Tipo de medicamento | Como actua | O que esperar |
|---|---|---|
| Citostático tópico (fluorouracilo), em solução para aplicar na pele | Impede a multiplicação das células alteradas | A pele piora antes de melhorar: fica vermelha, com feridas superficiais e crostas, e depois cicatriza |
| Imunomodulador tópico (imiquimode), em creme | Chama o sistema imunitário ao local | Vermelhidão marcada; algumas pessoas têm sintomas de tipo gripal durante o tratamento |
| Anti-inflamatório (diclofenac), para aplicar na pele | Acção mais suave sobre as células alteradas | Reacção ligeira, mas exige tratamento bastante mais prolongado |
O esquema, a duração e a área a tratar são decisão médica e variam muito entre eles — não existe um “melhor creme” universal. Existe a escolha certa para o número de lesões, a espessura, a localização e a tolerância de cada pessoa.
Duas notas sobre medicamentos que vai encontrar em sites estrangeiros:
- A tirbanibulina, uma pomada de aplicação durante poucos dias, está aprovada na Europa mas ainda não está disponível em Portugal. Aparece em artigos alemães, franceses e ingleses sobre o tema — daí a referência aqui.
- O mebutato de ingenol foi retirado do mercado europeu em 2020, depois de os dados de segurança apontarem para um aumento de cancro da pele nas áreas tratadas. Não deve ser usado, mesmo que encontre stock antigo ou informação desactualizada online.
Cremes hidratantes, esfoliantes ou queratolíticos de venda livre não tratam queratoses actínicas — podem suavizar a aspereza uns dias e atrasar o diagnóstico.
Tratamento com luz (terapia fotodinâmica)
É a opção com melhor resultado estético em áreas grandes, sobretudo na face e no couro cabeludo. Funciona em dois tempos: aplica-se um creme que é absorvido preferencialmente pelas células alteradas e as torna sensíveis à luz, e depois ilumina-se a área com uma luz de cor específica. As células que absorveram o creme são destruídas; a pele normal fica preservada.
Existe uma variante que mudou muito a tolerância do tratamento: a terapia fotodinâmica com luz do dia. Em vez de uma lâmpada, usa-se a luz natural — a pessoa aplica protector solar, aplica-se o creme e passa depois um período ao ar livre. É praticamente indolor, ao contrário da versão com lâmpada, que costuma ser dolorosa. Em Portugal, tem a vantagem óbvia de haver luz natural suficiente durante grande parte do ano.
Depois do tratamento a área fica vermelha e descama durante alguns dias, e é preciso evitar o sol nesse período.
Como evitar que apareçam novas
O tratamento resolve o que existe. A protecção solar é o que impede o resto.
- Protector solar SPF 50+ de largo espectro, todos os dias — e não apenas na praia, nem apenas no Verão. Aplicar em quantidade generosa e repetir ao longo do dia quando se está no exterior. Guia completo em fotoprotecção completa.
- Chapéu de aba larga — protege couro cabeludo e orelhas, as zonas que mais se esquecem e onde as lesões mais aparecem.
- Roupa com protecção, óculos com filtro ultravioleta, evitar as horas centrais e nunca usar solários.
- Depois de tratamentos de campo a pele fica temporariamente mais sensível ao sol — a protecção nessas semanas é ainda mais importante.
Em pessoas com muitas lesões, o dermatologista pode ainda ponderar retinoides tópicos como manutenção, ou um suplemento de nicotinamida (uma forma da vitamina B3), que mostrou reduzir o aparecimento de novas lesões em pessoas com vários cancros de pele prévios. Não trata as lesões existentes, o efeito perde-se ao suspender, não é o mesmo que a niacina, e a indicação é decisão médica — sobre a versão aplicada na pele, veja niacinamida.
Depois do tratamento: o que esperar
A pele piora antes de melhorar. Nos tratamentos de campo, a vermelhidão, as crostas e o desconforto fazem parte do tratamento. A pele leva algumas semanas a ficar lisa depois de terminar.
As lesões podem voltar. Não significa que o tratamento falhou — significa que o dano actínico continua lá por baixo, e é frequente ser preciso repetir tratamentos de campo ao longo dos anos. Por isso o seguimento faz parte do plano: reavaliação alguns meses depois, e depois consultas periódicas, com intervalos definidos pelo dermatologista consoante o número de lesões, os cancros de pele anteriores e o estado das defesas.
Quando consultar
Justificam avaliação dermatológica:
- Uma zona áspera que não sai com hidratante numa área exposta ao sol, há mais de um mês
- Uma mancha que parece “pele seca persistente” na testa, no couro cabeludo, nas orelhas ou nas mãos
- Várias manchas ásperas na mesma zona
- Lesão que cresce, dói, sangra, ulcerou ou endureceu — não esperar pela consulta de rotina
- Ter mais de 40 anos, pele clara e história de muitos anos de exposição solar
- Ser transplantado ou estar imunossuprimido, com qualquer lesão nova
- Já ter tido queratoses actínicas ou cancro da pele e estar há mais de um ano sem reavaliação
Na MyDermaCare, poderá realizar uma consulta de dermatologia online: responde a um questionário médico, submete fotografias e recebe em até 24 horas úteis um relatório dermatológico com orientação para o seu caso.
Perguntas Frequentes
A queratose actínica é cancro?
Não. É uma lesão pré-cancerígena: as células já estão alteradas, mas mantêm-se na camada mais superficial da pele e não têm como se espalhar. O que justifica tratar é o facto de uma minoria evoluir com o tempo para um carcinoma espinocelular, e de a presença de várias lesões indicar que aquela área de pele já acumulou muito sol.
Qual é o melhor creme para a queratose actínica?
Não existe um melhor creme para todos. Em Portugal há medicamentos aplicados na pele com mecanismos diferentes, todos com receita médica, e a escolha depende do número de lesões, da espessura, da localização e da reacção que cada pessoa tolera.
Li sobre uma pomada que se aplica só durante alguns dias — existe em Portugal?
Se se refere à tirbanibulina, está aprovada na Europa mas ainda não está disponível em Portugal. É frequente encontrá-la em artigos estrangeiros, o que gera a expectativa de a pedir na farmácia. Fale com o dermatologista sobre as opções que existem cá, que são eficazes.
Posso tratar em casa com um creme da farmácia?
Não. Hidratantes, esfoliantes e queratolíticos de venda livre podem suavizar a aspereza durante alguns dias, mas não eliminam as células alteradas — e o principal risco é atrasar meses o diagnóstico de uma lesão que já não era uma simples queratose actínica.
O tratamento dói?
Depende do método. A crioterapia arde durante a aplicação e nas horas seguintes. Os tratamentos aplicados na pele não doem no momento, mas provocam vermelhidão, feridas superficiais e desconforto ao longo do tratamento. A terapia fotodinâmica com lâmpada costuma ser dolorosa durante a iluminação; a variante com luz do dia é praticamente indolor.
A minha pele ficou muito pior depois de começar o creme. É normal?
Sim, e é esperado: a reacção inflamatória é o mecanismo pelo qual o tratamento funciona. Primeiro vermelhidão e descamação, depois feridas superficiais e crostas, e por fim cicatrização. Contacte o médico se a dor for intensa, se houver sinais de infecção ou se a reacção ultrapassar claramente a área tratada.
Volta depois do tratamento?
Com frequência, sim. O tratamento elimina as lesões, mas o dano acumulado do sol mantém-se naquela região. Voltarem não quer dizer que o tratamento falhou — quer dizer que é preciso protecção solar diária, também no Inverno, e reavaliações periódicas, repetindo o tratamento de campo quando o dermatologista o indicar.