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18 de janeiro de 2026  ·  Dermatologia

Borbulhas nos Dedos das Mãos: Eczema Disidrótico (Disidrose)

eczema disidrotico

Aparecem de repente, quase sempre nas faces laterais dos dedos: dezenas de borbulhas muito pequenas, duras, cheias de líquido transparente, que não rebentam com facilidade e que fazem uma comichão difícil de descrever a quem nunca a teve. Ao fim de duas ou três semanas secam e a pele descama em folhinhas redondas. Uns meses depois, voltam.

Quando é assim, é quase sempre eczema disidrótico — o mesmo que disidrose, e o mesmo que os médicos por vezes chamam pompholyx, uma palavra grega que só quer dizer “bolha”.

Três coisas antes de mais nada:

  • Não é contagioso. Não se apanha nem se passa a ninguém.
  • Não é fungo. É o engano mais comum, e explica muitos meses de creme antifúngico sem resultado nenhum.
  • Não é falta nem excesso de higiene. O nome antigo vem da ideia de que era “suor preso” — sabe-se hoje que não é isso.

Índice

O que são estas borbulhasComo é um surto, do princípio ao fimOnde aparecePorque apareceNão é só disidrose: o que mais faz borbulhas nas mãosOs testes de alergia de contactoO que fazer num surtoQuando volta sempre ou não passaO comprimido de que se fala lá fora — e a situação em PortugalMãos e pés que transpiram muitoO que fazer todos os diasQuando consultarPerguntas Frequentes

O que são estas borbulhas

São vesículas — o nome técnico de uma bolha pequena com líquido claro lá dentro. O que as torna diferentes das bolhas habituais é onde se formam: por dentro da pele grossa das palmas e das plantas, e não à superfície.

É por isso que:

  • Ficam encravadas, não rebentam sozinhas e resistem se as tentar espremer
  • Ao olhar contra a luz parecem grãos de tapioca ou de sagu, translúcidos, agrupados
  • Fazem uma sensação de “areia debaixo da pele” antes sequer de se verem

O líquido não é pus nem infecção. É soro, resultado do inchaço que se forma entre as células da pele quando aquela zona inflama. Se em algum momento ficar turvo ou amarelado, aí sim há infecção por cima — e isso muda a conduta.

Este é um dos vários tipos de eczema, e nas mãos é o que mais se confunde com os outros.

Como é um surto, do princípio ao fim

Os surtos seguem quase sempre a mesma sequência, e reconhecê-la ajuda a não desistir a meio:

  1. Antes de se ver nada — comichão ou ardor nas palmas e nas laterais dos dedos. Um a dois dias.
  2. As borbulhas — primeiro poucas e dispersas, depois em grupos densos. A comichão fica no seu pior, sobretudo à noite.
  3. Podem juntar-se em bolhas maiores, que já doem em vez de coçar.
  4. Secam e descamam — a pele levanta em folhinhas redondas. É a fase em que a maioria das pessoas pensa que está curada e pára o tratamento cedo de mais.
  5. Gretas — nas dobras dos dedos e nos pontos de pressão. Doem a trabalhar, a lavar, a apertar objectos, e podem sangrar.
  6. Se se repete muitas vezes — a pele fica permanentemente espessa, seca e escamosa, com o desenho das linhas da mão apagado. Chama-se liquenificação e é bem mais difícil de reverter.

A fase 4 é o ponto crítico. Parar aí é o que faz o surto seguinte chegar mais cedo.

Onde aparece

  • Nas laterais dos dedos das mãos — quase sempre o primeiro sítio, com as borbulhas alinhadas ao longo do bordo do dedo
  • Nas palmas, sobretudo nas almofadas debaixo do polegar e do dedo mínimo
  • Nas plantas dos pés e nas laterais dos dedos dos pés, por vezes ao mesmo tempo

Na maioria das pessoas só as mãos são afectadas. Costuma ser simétrico — os dois lados.

Um pormenor com valor de diagnóstico: as costas das mãos e a zona acima do pulso são poupadas. Se as lesões estão aí, o mais provável é tratar-se de dermatite de contacto ou de eczema atópico das mãos, e não disto.

Porque aparece

Não há uma causa única. Há um terreno e há gatilhos, e o tratamento resulta melhor quando se identificam os gatilhos daquela pessoa em concreto.

FactorPesoComo se investiga
Tendência atópica (eczema, asma ou rinite, na pessoa ou na família)O mais consistente — cerca de metade dos casosHistória clínica
Alergia a metais, sobretudo níquel, e também cobalto e crómioFrequenteTestes de alergia de contacto
Stress e transpiração excessiva das mãosMuito comumHistória clínica
Calor e humidadeMuito comum — explica os surtos de Primavera e VerãoPadrão sazonal
Pé de atleta nos pésUma minoria, mas importanteExame dos pés
Alguns medicamentosRaroRevisão da medicação

Duas merecem explicação, porque são contra-intuitivas.

O níquel não age só por contacto. Toda a gente percebe que o anel, os brincos, a fivela ou o fecho das calças podem irritar a pele onde tocam. O que se percebe menos é que, em pessoas já sensibilizadas, o níquel engolido nos alimentos pode desencadear lesões nas mãos, longe de qualquer contacto. Chocolate preto, frutos secos, leguminosas, marisco e conservas são as fontes habituais.

O fungo dos pés pode dar borbulhas nas mãos. É uma reacção à distância: o sistema imunitário responde à infecção dos pés e a resposta manifesta-se nas mãos, onde não há fungo nenhum. Tratar os pés faz desaparecer as borbulhas das mãos. Vale sempre a pena olhar para os pés de quem tem isto.

Sobre o stress: agrava, e agrava de forma consistente — em parte por aumentar a transpiração das mãos, em parte por libertar mediadores inflamatórios na própria pele. Não é “coisa da cabeça”; é um mecanismo com nome.

Não é só disidrose: o que mais faz borbulhas nas mãos

Vale a pena conhecer as alternativas, porque algumas tratam-se de forma completamente diferente:

O que pode serO que faz suspeitar
Fungo (micose) da mãoCostuma ser numa mão só, com descamação a fazer um bordo em anel — e frequentemente com os dois pés afectados. Ver micoses da pele
Dermatite de contactoO desenho das lesões corresponde ao objecto ou ao produto; atinge as costas das mãos
SarnaComichão feroz à noite, entre os dedos, e outras pessoas de casa também com comichão
Eczema atópico das mãosHistória de eczema desde criança, e lesões noutros sítios do corpo
Infecção bacterianaLíquido turvo ou amarelado, dor maior do que comichão
Psoríase das palmasBorbulhas amareladas sobre placas espessas e descamativas

Na prática, distinguir estas coisas só a olho é frequentemente impossível — e é por isso que existem os testes descritos a seguir.

Os testes de alergia de contacto

O exame que mais muda a conduta chama-se, em linguagem médica, teste epicutâneo ou patch test. Em português corrente: os testes de alergia de contacto que se fazem nas costas.

Como é, na prática:

  • Colam-se nas costas várias fitas com pequenos discos, cada um com uma substância diferente — metais, perfumes, conservantes, borrachas, colas
  • Ficam colados dois dias. Nesse período não se pode molhar as costas nem transpirar muito
  • O médico observa a pele quando se retiram e volta a observar dois dias depois — porque as reacções que interessam são as que aparecem tarde
  • Não dói. No máximo, sente-se comichão num dos quadrados

Está indicado em quem tem surtos repetidos, e o motivo é prático: uma parte significativa das pessoas com esta doença tem uma alergia de contacto por cima, que passa despercebida e que mantém a doença activa. Encontrá-la pode mudar completamente o curso — se a substância for evitável, a doença pode deixar de se manifestar durante anos.

O tema geral está desenvolvido em alergia na pele.

O que fazer num surto

O objectivo é travar a inflamação depressa, porque um surto travado cedo resolve-se em muito menos tempo.

  • Creme ou pomada anti-inflamatória — os corticóides tópicos são a primeira linha. A pele das palmas e das plantas é grossa e absorve pouco, pelo que aqui se usam potências que não se usariam noutras zonas do corpo. Qual, com que frequência e durante quanto tempo é decisão médica, e o tratamento não se prolonga indefinidamente.
  • Compressas frias, alguns minutos, várias vezes ao dia. Reduzem o inchaço e aliviam a comichão de imediato. Água fria simples resulta.
  • Anti-histamínico — ajuda sobretudo a dormir, que numa fase destas não é pouco.
  • Não furar as borbulhas. A pele por cima é o melhor penso que existe e furar abre porta a infecção. As bolhas grandes e dolorosas podem ser drenadas — em consulta, em condições estéreis e preservando o tecto.
  • Hidratar muito, mesmo com lesões, e sobretudo depois de lavar as mãos.

Quando volta sempre ou não passa

Nas formas que recidivam ou que se arrastam, entram outras abordagens:

  • Cremes imunomoduladorestacrolímus em pomada e pimecrolímus em creme travam a inflamação por uma via diferente e não afinam a pele, o que os torna adequados a uso prolongado e a esquemas de manutenção. Podem arder nas primeiras aplicações; passa ao fim de alguns dias.
  • Fototerapia — sessões de luz ultravioleta dirigidas só às mãos e aos pés, em centro especializado. É das opções mais eficazes nesta doença em concreto, e exige persistência ao longo de vários meses.
  • Comprimidos que travam o sistema imunitário — reservados às formas graves que não respondem ao resto. Exigem análises regulares e são decisão médica ponderada.
  • Biológicos — a família de injecções desenvolvida para o eczema atópico moderado a grave, que pode ter lugar quando existe uma componente atópica marcada.

Nada disto se decide sem observação. E há um princípio transversal: enquanto o gatilho estiver activo — o níquel, o fungo dos pés, o trabalho com as mãos molhadas — nenhum tratamento é definitivo.

O comprimido de que se fala lá fora — e a situação em Portugal

Este ponto merece clareza, porque é fonte de confusão e de expectativas frustradas.

Existe um medicamento oral — a alitretinoína, da família dos retinóides — que é, noutros países europeus, o tratamento de referência para o eczema crónico das mãos que não responde aos cremes. É provável que encontre referências a ele em sites estrangeiros e em fóruns, e é frequente chegarem doentes à consulta a perguntar por ele pelo nome.

A informação importante é esta: a alitretinoína não está disponível em Portugal. Não tem registo no INFARMED e não existe forma de a obter em farmácia portuguesa. Não é uma questão de comparticipação nem de o médico “não querer receitar” — o medicamento não está cá.

Acrescente-se uma razão de segurança para não o tentar obter por fora: como todos os retinóides orais, é gravemente prejudicial para o feto, e o seu uso noutros países está sujeito a um programa formal de prevenção da gravidez, com contracepção e testes obrigatórios. Não é um medicamento para andar a circular sem acompanhamento médico.

O que isto significa na prática: as opções realmente disponíveis em Portugal são as da secção anterior — e são, na maioria dos casos, suficientes para obter controlo. Vale a pena conhecer o que existe lá fora; não vale a pena adiar o que existe cá à espera dele.

Mãos e pés que transpiram muito

Em quem tem as mãos e os pés permanentemente húmidos, a transpiração funciona como combustível: mantém a pele macerada e alimenta os surtos.

Quando isso é evidente, tratar a transpiração faz parte de tratar a doença. Há opções tópicas de aplicação nocturna, há um tratamento com corrente eléctrica em água (iontoforese) e, nos casos com maior impacto, há injecções que bloqueiam temporariamente as glândulas do suor da palma. O tema está desenvolvido em hiperidrose.

O que fazer todos os dias

É a parte menos vistosa e a que mais espaça os surtos:

  • Hidratar as mãos várias vezes ao dia, sempre depois de lavar, com um creme espesso e sem perfume. E ao deitar, com uma camada generosa e luvas de algodão por cima — é a hora em que a pele mais absorve.
  • Lavar menos e melhor. Água morna, produto de limpeza suave, e secar bem entre os dedos.
  • Luvas certas. Para tarefas domésticas e produtos de limpeza, luvas de borracha com uma luva fina de algodão por dentro — o algodão absorve o suor, que sozinho já irrita. Não as usar durante horas seguidas.
  • Tirar os anéis para lavar a loiça e para trabalhar. Debaixo do anel acumula-se água e detergente.
  • Tratar os pés. Manter secos, alternar o calçado, e tratar cedo qualquer micose.
  • Se tem alergia ao níquel confirmada, evitar contacto prolongado com bijutaria e peças metálicas; a restrição alimentar só se justifica com o teste positivo e deve ser orientada, para não criar carências.
  • Gerir o stress de forma concreta — sono, exercício, e apoio profissional se for esse o caso.

Quando consultar

Vale a pena procurar avaliação dermatológica se:

  • As borbulhas não melhoram ao fim de uma semana, ou pioram
  • Já teve vários surtos — é aí que os testes de alergia de contacto passam a fazer sentido
  • Tem gretas dolorosas que limitam o trabalho ou as tarefas do dia-a-dia
  • As bolhas são grandes e doem
  • O líquido ficou turvo ou amarelado, a zona está quente, dói muito ou surgiu febre — pode haver infecção
  • Anda a usar creme antifúngico há semanas sem melhorar — provavelmente o diagnóstico não é esse
  • A comichão tira-lhe o sono
  • Tem também descamação ou comichão nos pés

Na MyDermaCare, poderá realizar uma consulta de dermatologia online para avaliação e plano de tratamento, com resposta médica em até 24 horas úteis.

Perguntas Frequentes

Isto é contagioso?

Não. Não se apanha de ninguém nem se passa a ninguém, por aperto de mão, toalhas, piscina ou objectos partilhados.

É fungo?

Quase sempre não — e é o engano mais comum. O fungo da mão costuma atingir uma mão só, descama num bordo em anel e anda acompanhado de fungo nos dois pés. Se anda a aplicar creme antifúngico há semanas sem melhorar, o diagnóstico provavelmente é outro.

Posso furar as borbulhas?

Não. A pele por cima está a funcionar como penso e furar abre porta a infecção. As bolhas grandes e muito dolorosas podem ser drenadas em consulta, em condições estéreis e preservando a pele de cima.

Porque é que volta sempre?

Porque há um terreno de fundo que se mantém — atópico, alérgico ou de transpiração — e porque os gatilhos continuam presentes. A doença espaça-se muito quando se identifica o gatilho concreto: um metal, o fungo dos pés, o trabalho com as mãos molhadas.

Tem cura?

Cura definitiva, não. Mas períodos longos sem sintomas, sim — e são a regra quando o tratamento é feito até ao fim e o gatilho é identificado. Nalguns casos, evitar o que a desencadeia faz a doença desaparecer durante anos.

O stress é mesmo uma causa?

Não é a causa, mas é um agravante real. Aumenta a transpiração das mãos e liberta mediadores inflamatórios na própria pele. Ambos os efeitos estão descritos.

Tenho de deixar de comer chocolate e frutos secos?

Só se tiver alergia ao níquel confirmada em teste. Nesse caso, uma dieta com menos níquel pode ajudar e deve ser orientada, para não criar carências. Sem teste positivo, não há razão para restringir nada.

Porque é que descama tanto depois?

Porque a camada superficial da pele por cima das borbulhas morre e levanta em folhinhas. É a fase normal de resolução — e é precisamente aí que não se deve parar o tratamento nem a hidratação.

Que creme posso comprar sem receita?

Um bom creme hidratante espesso e sem perfume, esse pode e deve usar-se sempre. Os cremes anti-inflamatórios usados nas palmas são de potência que exige indicação médica — nas mãos, ao contrário de outras zonas, a pele grossa muda completamente as regras.

Isto aparece nas crianças?

É pouco frequente. Quando aparece, vale a pena procurar uma tendência atópica de fundo e olhar com atenção para os pés.

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