Micose na Pele: Tipos, Sintomas e Como Tratar

Uma mancha vermelha que faz comichão e vai crescendo aos poucos, muitas vezes em forma de anel — com a borda mais viva e o meio mais claro, como se já estivesse a sarar por dentro. É a imagem mais típica da micose na pele: uma infecção causada por um fungo, a que muita gente ainda chama impinge.
Duas coisas convém saber logo. “Micose” não é uma doença só — é uma família de infecções pelo mesmo tipo de fungos, que muda de nome consoante o sítio onde aparece: no corpo, na virilha, nos pés, nas unhas, no couro cabeludo. E a maioria resolve-se com um antifúngico em creme comprado na farmácia. As excepções contam-se pelos dedos, mas são importantes: a micose do couro cabeludo na criança não sara só com champô, e o pano branco — aquelas manchas que não bronzeiam — é causado por um fungo diferente e trata-se de outra maneira.
Este artigo explica como se reconhece cada tipo, quando basta um creme e quando são precisos comprimidos, o que se confunde com micose, e como evitar que volte — tratando não só a pele, mas também o calçado, as toalhas e, às vezes, o gato lá de casa.
Índice
O que é a micose na peleComo se reconhece: o anelMicose no corpo (impinge)Micose na virilhaMicose nos pés e nas unhasMicose no couro cabeludo — a da criançaPano branco: as manchas que não bronzeiamO que se confunde com micoseComo se confirma o diagnósticoComo se trata: creme ou comprimidoQuando parece que não resultaTratar o calçado, as toalhas e a casaQuando consultarPerguntas FrequentesO que é a micose na pele
A micose é uma infecção da pele por um fungo. O fungo alimenta-se da queratina — a camada mais superficial da pele, e também do pelo e das unhas — e gosta de três coisas: calor, humidade e escuridão. É por isso que aparece de preferência nas dobras (virilhas, entre os dedos), em quem transpira muito e no verão.
O ponto que mais confunde as pessoas é este: é sempre o mesmo tipo de fungo, mas o nome muda com o sítio. No corpo chama-se-lhe impinge; na virilha, micose da virilha; nos pés, pé de atleta; na unha, fungo da unha; no couro cabeludo, micose do couro cabeludo. E o fungo passa de um sítio para o outro na mesma pessoa: quem tem pé de atleta leva o fungo, com a toalha ou com a roupa interior, para a virilha — e daí a importância de tratar tudo ao mesmo tempo.
À parte, há o pano branco, que a maioria das pessoas também chama micose mas que é outra coisa: é causado por uma levedura diferente, não é contagioso, e trata-se de forma própria. Falo dele mais à frente, porque vale a pena não o confundir com as micoses verdadeiras.
Como se reconhece: o anel
A marca mais reconhecível da micose no corpo é a mancha em anel:
- Borda activa — o bordo é vermelho, ligeiramente elevado, a descamar, às vezes com pequenas bolhinhas. É aí que o fungo está vivo e a avançar.
- Centro mais claro — o meio parece já curado, mas ainda está infectado. É este contraste que dá o aspecto de anel.
- Cresce para fora, alargando-se pouco a pouco.
- Faz comichão, por vezes muita.
Nem todas as micoses fazem um anel perfeito. Nos pés e nas mãos costuma ser sobretudo descamação; na virilha, uma placa avermelhada nas dobras; no couro cabeludo, falhas de cabelo com escamas. Mas quando surge uma mancha que faz comichão, descama no bordo e vai crescendo em círculo, a micose é a primeira hipótese a pôr.
Micose no corpo (impinge)
É a micose da pele lisa — tronco, braços, pernas, pescoço — a que popularmente se chama impinge. Aparece como uma ou várias manchas em anel, com o bordo a descamar e comichão. É frequente em crianças que brincam com gatos e cães (o animal é muitas vezes a fonte) e em quem pratica desportos de contacto como judo ou luta, onde passa de pele para pele.
Na maioria dos casos, um antifúngico em creme aplicado na mancha e um pouco à volta resolve, desde que se mantenha o tratamento mais uns dias depois de a pele parecer curada — parar cedo é a razão número um de a micose voltar. Quando são muitas manchas, quando a área é extensa, ou quando o creme não chega, passa-se ao antifúngico oral (em comprimido), que é sempre decisão médica.
Micose na virilha
A micose na virilha afecta as pregas da virilha e a parte de dentro das coxas. É mais frequente no homem, e piora com o calor, o suor, a roupa apertada e o desporto. Aparece como uma placa avermelhada, simétrica, com a borda a descamar e o centro mais claro, e faz comichão intensa. Costuma poupar a zona genital — o que ajuda a distingui-la de outras infecções das dobras.
Há um pormenor prático que evita recaídas: quem tem micose na virilha tem quase sempre pé de atleta ao mesmo tempo, mesmo sem dar por isso. O fungo viaja dos pés para a virilha na roupa interior. Tratar só a virilha, e deixar os pés, é receita para a micose voltar semanas depois. Por isso tratam-se as duas coisas em conjunto. O tratamento é, também aqui, um antifúngico em creme; nos casos extensos ou que recidivam, o médico pode juntar o comprimido.
Micose nos pés e nas unhas
São as duas localizações mais frequentes no adulto, e cada uma tem o seu artigo próprio:
- Nos pés — o pé de atleta: comichão e descamação entre os dedos, pele branca e amolecida, às vezes com fissuras. É a porta de entrada mais comum do fungo para o resto do corpo.
- Nas unhas — o fungo da unha: a unha engrossa, fica amarelada e esfarela-se. É a forma mais difícil e mais demorada de tratar, e funciona como um reservatório que reinfecta a pele à volta.
O importante a reter é que estas três coisas — pé de atleta, fungo da unha e micose da virilha — andam de mãos dadas. Tratar uma e ignorar as outras é o motivo mais comum de a micose parecer que nunca vai embora. Uma unha infectada, em especial, volta a semear o fungo enquanto não for tratada.
Micose no couro cabeludo — a da criança
A micose do couro cabeludo é sobretudo um problema das crianças, em idade escolar, e é uma das causas mais comuns de queda de cabelo em falhas nessa idade. Aparecem áreas com falta de cabelo, com descamação (parecida com caspa) e os cabelos partidos rente ao couro cabeludo. Muitas vezes o fungo vem de um gato ou cão de casa, que pode nem ter sinais visíveis.
Aqui está a diferença mais importante deste artigo: a micose do couro cabeludo não se cura só com creme nem só com champô. O fungo entra dentro do cabelo e do folículo, a uma profundidade onde os produtos aplicados por fora não chegam. Por isso precisa sempre de tratamento oral (comprimido ou xarope), durante várias semanas e com acompanhamento médico. O champô antifúngico (com ingredientes como o cetoconazol, o sulfureto de selénio ou o piritionato de zinco) tem um papel útil — reduz o contágio a outras crianças — mas não substitui o tratamento por dentro.
Há uma forma mais grave, inflamada, que forma uma massa mole com pús e crosta no couro cabeludo (chama-se quérion). Assusta e parece uma infecção bacteriana, mas continua a ser fungo — e, se não for tratada a tempo, pode deixar uma falha de cabelo definitiva. Por isso, qualquer criança com falhas de cabelo e descamação deve ser vista sem tratar às cegas. A boa notícia: tratada a infecção, o cabelo volta a crescer. A dermatologia pediátrica tem regras próprias para estes casos.
Pano branco: as manchas que não bronzeiam
O pano branco (também chamado micose de praia) é a micose que mais gente tem e que menos se parece com as outras. Aparece como manchas com uma descamação fina no tronco, ombros, pescoço e parte de cima dos braços — as zonas mais oleosas da pele. As manchas podem ser mais claras, mais escuras ou levemente rosadas, e o sinal que mais chama a atenção é este: não bronzeiam. Ao sol, a pele à volta escurece e as manchas ficam. Daí a ideia (errada) de que se apanha na praia.
Três coisas a saber sobre o pano branco, porque o distinguem das micoses verdadeiras:
- É causado por uma levedura, não pelo fungo das outras micoses — uma levedura que já vive na pele de toda a gente. Em certas pessoas, com o calor, o suor e a pele mais oleosa, ela multiplica-se e dá as manchas.
- Não é contagioso. Não se apanha na piscina, na praia nem por contacto — ao contrário do impinge ou do pé de atleta.
- Volta com facilidade, sobretudo no verão, em quem tem tendência para isso.
Trata-se de fora — com um champô ou gel antifúngico aplicado na pele, e, nas formas mais extensas ou que teimam em voltar, com um antifúngico oral (que não é o mesmo que se usa nas outras micoses). E há um ponto que evita tratamentos repetidos à toa: depois de curado, as manchas claras ainda ficam semanas ou meses, porque a pele demora a recuperar a cor. Isso não é sinal de que o tratamento falhou — é só o tempo que a pele leva a igualar o tom. Se quiser perceber melhor este tipo de sinal, veja o artigo sobre a mancha branca na pele.
A mesma levedura está também por trás da dermatite seborreica e de algumas formas de caspa — são quadros diferentes, mas com um fundo comum.
O que se confunde com micose
Nem tudo o que faz comichão e descama é micose — e nenhuma destas melhora com antifúngico:
| O que é | O que faz suspeitar |
|---|---|
| Eczema | Vermelhidão e descamação sem o anel típico, com muita comichão; costuma haver história de pele sensível |
| Psoríase | Placas bem delimitadas com descamação espessa e esbranquiçada, muitas vezes nos cotovelos, joelhos ou couro cabeludo, e nos dois lados do corpo |
| Dermatite seborreica | Descamação amarelada e oleosa nas dobras do nariz, sobrancelhas e couro cabeludo |
| Queratose seborreica | Manchas castanhas ásperas, “coladas” à pele, sem comichão nem anel |
A regra de ouro é a mesma de sempre: antes de pôr uma pomada de corticoide numa mancha que descama, é preciso ter a certeza de que não é fungo — porque o corticoide, nesse caso, faz o fungo espalhar-se e disfarça o quadro, atrasando o diagnóstico durante semanas.
Como se confirma o diagnóstico
Muitas vezes o aspecto basta ao médico para reconhecer a micose. Quando há dúvida, ou quando o tratamento não está a resultar, confirma-se de forma simples: raspa-se um pouco das escamas do bordo da mancha e observa-se ao microscópio, o que dá uma resposta rápida (diz se há fungo, mas não diz qual). Pode ainda pôr-se o material a crescer em cultura, que demora mais tempo mas identifica o fungo em causa — útil quando o caso não cede ou quando se suspeita de um fungo resistente.
No couro cabeludo, a observação com uma luz especial e a dermatoscopia ajudam a escolher os cabelos a colher e a distinguir a micose de outras causas de queda. Esta confirmação é sobretudo importante antes de começar comprimidos e para separar a micose das doenças que se lhe parecem.
Como se trata: creme ou comprimido
A decisão entre tratar por fora (creme) ou por dentro (comprimido) depende de três coisas: onde é, quão extensa é, e a que profundidade chega o fungo.
O antifúngico em creme resolve a maioria dos casos da pele lisa, da virilha e do pé de atleta simples. Aplica-se na zona e um pouco à volta, com a pele bem seca, e — este é o erro mais comum — continua-se a aplicar depois de a pele parecer curada. O fungo ainda lá está, mesmo sem sintomas.
O antifúngico oral (comprimido) fica para os casos em que o creme não chega:
- Micose extensa ou com muitas manchas.
- A micose do couro cabeludo (sempre oral — o creme não chega ao fungo dentro do cabelo).
- O fungo da unha, que quase sempre precisa de tratamento por dentro.
- Micose que volta uma e outra vez apesar de creme bem feito.
- Pessoas com diabetes ou com as defesas em baixo.
Os comprimidos não são inócuos: podem exigir análises ao fígado e interferir com outros medicamentos que a pessoa já toma. Por isso a escolha, o esquema e a duração são do médico — não é tratamento para começar por conta própria.
Quando parece que não resulta
Se um tratamento bem feito não resolveu, a resposta não é repetir o mesmo durante mais tempo. Vale a pena reabrir três perguntas:
- Era mesmo micose? Boa parte das “micoses” que não melhoram afinal são outra coisa — eczema, psoríase, dermatite seborreica. É aqui que confirmar em laboratório compensa.
- Foi bem cumprido? Parar cedo, ou não tratar a área toda, faz falhar o melhor dos tratamentos.
- A fonte foi tratada? Um pé de atleta, uma unha com fungo, o calçado ou um animal de estimação reinfectam a pele em poucas semanas.
Há ainda uma quarta hipótese: existe um tipo de fungo que já não responde ao antifúngico habitual e que se tem espalhado. Por isso, quando um tratamento correcto e bem cumprido falha numa micose extensa e rebelde, faz sentido identificar o fungo no laboratório antes de assumir que a pessoa não fez as coisas como devia.
Tratar o calçado, as toalhas e a casa
As micoses verdadeiras são contagiosas — passam de pessoa para pessoa, do animal para a pessoa (sobretudo gatos e cães) e pelo que se partilha ou se deixa nos sítios húmidos. Tratar só a pele e deixar tudo o resto igual quase garante que a micose volta. As medidas que mais pesam:
- Secar bem a pele, com atenção às dobras e aos espaços entre os dedos — a humidade é o que alimenta o fungo.
- Tratar o calçado, que guarda o fungo durante meses: pó antifúngico por dentro, alternar pares para cada um secar, e trocar as palmilhas depois da cura.
- Não partilhar toalhas, chinelos, meias, escovas de cabelo nem corta-unhas.
- Chinelos em balneários, piscinas e ginásios — nunca de pé descalço.
- Lavar roupa interior, meias e toalhas a temperatura alta, que inactiva o fungo.
- Tratar ao mesmo tempo o pé de atleta e o fungo da unha, se existirem — são a causa número um de reinfecção.
- Ver o animal de estimação ao veterinário quando há micose no corpo ou no couro cabeludo de uma criança — muitas vezes o gato ou o cão é a fonte, mesmo sem sinais.
- Manter a pele à volta cuidada: uma pele inflamada, com foliculite ou fissuras, é mais fácil de colonizar.
O pano branco é a excepção: como não é contagioso e a levedura já vive na pele, aqui a prevenção é sobretudo controlar o suor e a oleosidade e repetir o tratamento de fora nas alturas de maior risco (o verão), em quem tem tendência para ele.
Quando consultar
Justificam uma avaliação dermatológica:
- Mancha em anel que faz comichão e não melhora após duas semanas de antifúngico de farmácia.
- Muitas manchas no corpo, na virilha ou nas nádegas.
- Couro cabeludo com falhas de cabelo e descamação numa criança — todos os casos devem ser vistos (o tratamento é por dentro).
- Unhas espessadas, amareladas e a esfarelar-se há meses.
- Mancha que piora depois de aplicar corticoide — sinal típico de micose disfarçada.
- Manchas que não bronzeiam e voltam todos os verões (provável pano branco), se incomodarem ou não passarem.
- Micose associada a episódios de vermelhidão, inchaço e dor da perna (risco de infecção da pele).
- Comichão no corpo persistente com manchas que descamam.
- Diabetes, transplante ou defesas em baixo com qualquer mancha nova que descame.
- Dúvida entre micose e outra doença da pele.
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Perguntas Frequentes
A micose é contagiosa?
As micoses verdadeiras (do corpo, virilha, pés, unhas e couro cabeludo) sim — passam por contacto directo pele-a-pele, por contacto com animais infectados (sobretudo gatos e cães) e pelo que se partilha ou se deixa em chãos húmidos: toalhas, chinelos, calçado, escovas. O risco cai muito poucos dias depois de começar o tratamento. O pano branco é a excepção: não é contagioso.
A micose vai-se embora sozinha?
Não. As micoses verdadeiras tendem a alargar-se e a cronificar, e podem tornar-se porta de entrada para infecções bacterianas mais sérias, sobretudo a partir de fissuras nos pés. Mesmo as manchas pequenas devem ser tratadas — deixar andar só facilita que se espalhem e passem a outras pessoas.
Uma pomada para a comichão resolve?
Se for uma pomada de corticoide, não — pode aliviar por uns dias, mas faz o fungo espalhar-se e disfarça o quadro, atrasando o diagnóstico. O que trata a micose é um antifúngico, não um corticoide. Na dúvida sobre o que se está a aplicar, vale a pena confirmar antes.
O champô antifúngico cura a micose do couro cabeludo?
Não. Os produtos aplicados por fora, incluindo os champôs, não chegam ao fungo dentro do cabelo e do folículo. O champô ajuda a reduzir o contágio a outras pessoas, mas o tratamento que cura é sempre por dentro — comprimido ou xarope, durante várias semanas e com acompanhamento médico.
Por que é que a minha micose volta sempre?
As causas habituais são: parar o tratamento cedo demais (deve manter-se algum tempo depois de a pele parecer curada); não tratar a fonte (um pé de atleta, uma unha com fungo, o calçado contaminado ou um animal de estimação); humidade que se mantém; e uso prévio de corticoide. Uma micose que volta sempre, apesar de tudo bem feito, justifica identificar o fungo em laboratório.
O pano branco apanha-se na praia?
Não. O pano branco é causado por uma levedura que já vive na pele de toda a gente — não se apanha na praia, na piscina nem por contacto. O que o faz aparecer é a própria pele, com o calor, o suor e a oleosidade. As manchas ficam mais visíveis depois do sol porque não bronzeiam, e é daí que vem a ideia errada de “micose de praia”.
As manchas claras ficaram depois de tratar — o tratamento falhou?
Provavelmente não. No pano branco, as manchas mais claras persistem semanas a meses depois de o fungo já ter desaparecido, porque a pele demora a recuperar a cor. Não é sinal de falência nem motivo para repetir o tratamento sem parar. O tom acaba por igualar, sobretudo fora das alturas de mais sol.
Posso ir à piscina com micose?
Nas formas extensas e no couro cabeludo, é prudente aguardar o início do tratamento. Mesmo sem regra formal, a responsabilidade é reduzir o risco de passar a outros: andar com chinelos nos balneários, secar bem os pés, não partilhar toalhas. Depois de iniciado o tratamento e de a descamação activa desaparecer (habitualmente ao fim de uma a duas semanas), pode retomar com segurança.